PAP
DELES


MASCULINIDADE EM DESCONSTRUÇÃO
Lucas Teixeira
A masculinidade tóxica é uma construção social, que pode ser caracterizada pelo conjunto de regras que determinam comportamentos, atitudes e papéis específicos atribuídos aos indivíduos do sexo masculino. Normalmente, essas imposições estão ligadas a comportamentos violentos, que valorizam a força física e tratam as emoções como um sinal de fraqueza, que precisam ser evitadas.
Nesse ponto de vista, o homem ideal seria o “machão”, que não possui fraquezas, é bem sucedido, chefe de família e que não tem medo de nada. Os que não se enquadram nessa figura, são malvistos, criticados ou até mesmo hostilizados. Uma prova de que isso é comum, são frases como “vira homem”, “deixa disso, você já é um homem”, “isso é coisa de mulher”, “homem não chora”, entre muitas outras que estamos acostumados a ouvir desde a infância.
As consequências da masculinidade tóxica são perceptíveis nos mais diferentes espaços. Os “sintomas” dessa grande doença podem ser observados nos índices de depressão e suicídio, nas taxas de violência doméstica, na rua ou até mesmo no trânsito, no preconceito contra pessoas da comunidade LGBTQIA+, em vícios como o tabagismo ou alcoolismo e até mesmo em coisas cotidianas, como o sexo.
Um relatório da Organização Pan-Americana da Saúde, da Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), publicado no final de 2019, destaca que um em cada cinco homens que vivem nas Américas morre antes dos 50 anos, sendo que muitas dessas mortes são causadas por problemas diretamente ligados à masculinidade tóxica. De acordo com os dados, as expectativas sociais em relação aos homens são capazes de aumentar o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, vícios, acidentes de trânsito e homicídios, além de contribuírem para o aumento das taxas de suicídio.
No Brasil, os homens são as principais vítimas em acidentes de trânsito, sendo que as principais causas desses acidentes são excesso de velocidade e embriaguez ao volante. De acordo com o Infosiga, estudo realizado pelo Detran SP e divulgado em 2020, de janeiro a agosto daquele ano, 122 mulheres se envolveram em acidentes de trânsito, contra 1.822 homens - um percentual 16 vezes menor.
Ainda de acordo com o estudo, nos três primeiros meses daquele ano, de 91.500 carteiras de habilitação suspensas, apenas 26% eram de mulheres. Por último, segundo um levantamento do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, além dos homens beberem com maior frequência (39% bebem ao menos 1 vez por semana e 11% diariamente), eles também lideram os números do hábito de beber e dirigir.
Já nas taxas de violência, o sexo masculino também lideram. Dados do ministério da saúde indicam que 83% das mortes por homicídios ou acidentes no Brasil tem homens como vítimas. Sem falar no Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (INFOPEN), que mostra que eles ocupam 90% da população prisional do Brasil.
De onde vem essa violência?
A doutora em Antropologia Social Lidice Meyer, professora da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias comenta sobre os principais motivos para muitos homens optarem pela prática da violência e pelo consumo de substâncias psicoativas. Para ela, não é natural do sexo masculino ser violento, mas toda a pressão imposta a ele pela sociedade acaba aumentando as probabilidades de recorrer à violência.
“Em uma sociedade que atribui ao homem toda a carga de responsabilidade pelo sustento da casa, do controle do relacionamento, se mostrar bem sucedido em tudo, com um bom carro e boas roupas, tudo isso gera uma maior proporção de buscarem substâncias ou fugas que possam levar a uma violência no final das contas”, afirma Meyer.
Não só os homens são afetados pelos reflexos dessa cultura, mas também toda a sociedade ao seu redor. Os estereótipos ligados a essa construção social da masculinidade tóxica faz com que o preconceito ainda seja algo “comum” na cabeça de muitos homens, que pensam que os homens da comunidade LGBTQIA+ são menos homens por conta do seu gênero.
Para a advogada e membro da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB de São Paulo, Heloisa Helena Cidrin Gama Alves, por mais que a comunidade tenha ganhado mais visibilidade e direitos ao longo dos anos, a violência ainda é alarmante. “A sociedade brasileira ainda é muito conservadora e heteronormativa, temos muito a evoluir, por isso HÁ índices alarmantes de violência. É uma construção, mas tem melhorado muito.”
Por que os homens se cuidam menos?
Em meio a esse medo do julgamento, muitos homens têm preconceito com a prática do auto cuidado, evitando tomar os devidos cuidados com a pele, cabelos e outras partes do corpo, optando pelo “básico” da higiene por achar que se cuidar o faz “menos homem” que os outros.
E essa falta de cuidado não fica apenas com questões higiênicas, segundo dados do Ministério da Saúde, 30% dos homens não têm o hábito de ir ao médico para consultas de rotina e mais da metade deles só buscam a ajuda de um profissional quando os problemas já estão em um estágio avançado.
Porém, essa falta de cuidado com a saúde vem com um alto custo ao compararmos as expectativas de vida masculina e feminina no Brasil. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa dos homens no Brasil, em 2022, é de 72,2 anos, 7,1 anos a menos em comparação às mulheres, que vivem 79,3. Essa diferença está diretamente ligada à falta de cuidado com a própria saúde.
Os cuidados com a saúde mental também são ignorados por grande parte dos homens, que possuem muita dificuldade de se abrir com parentes, amigos ou pessoas próximas. De acordo com a pesquisa “O silêncio dos homens”, realizada pelo instituto PdH, em parceria com a Zooma Inc, 3 em cada 10 homens possuem o hábito de conversar sobre seus maiores medos e dúvidas com os amigos.
Essa repressão de sentimentos leva os homens a quadros de estresse e ansiedade gravíssimos. Não é à toa toa que eles lideram as taxas de suicídio e depressão, não só no Brasil, como no mundo. Segundo dados do Ministério da Saúde, a taxa de mortalidade por suicídio entre homens é de 9,2 para cada 100 mil. O índice é quase quatro vezes maior do que aquele registrado entre as mulheres. Eles também têm maior tendência a achar que a depressão é falta de fé e cuidam menos da saúde.
Para o psicólogo e especialista em neurociência pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Wilson Pizzotti, ainda existe muito preconceito masculino para consultar um psicólogo ou psiquiatra. A principal barreira é a falta de informação. “Hoje em dia o acesso a esses tratamentos é fácil, no entanto, os pensamentos sobre esses procedimentos são antigos. Então por isso os homens não se atualizam,deixam de conversar, preferem guardar para si, o que aumenta a probabilidade do surgimento de doenças psicossomáticas”, explica Pizzotti.
Felizmente, nos últimos anos, esse tema tem sido colocado em pauta cada vez mais, e o estereótipo do homem vêm se desconstruindo. São diversas as campanhas criadas pelas grandes empresas de moda e cosméticos que incentivam o homem a se libertar do medo de ser quem realmente é, podendo se cuidar como deseja ou utilizar as roupas que gostaria de usar.
Muitos projetos de conscientização também foram iniciados, com o intuito de buscar a reflexão dos homens sobre seus comportamentos e como eles impactam a sociedade ao seu redor, por meio de grupos de apoio e rodas de conversa, como é o caso do projeto MEMOH, Masculinidade saudável, Prazer Ele e Homem Paterno, por exemplo.
QUAL É A PIOR CARACTERÍSTICA DE UM HOMEM TÓXICO?

Hoje em dia, há muita discussão sobre comportamentos nocivos que são cometidos por homens. Para descobrir a pior característica tóxica do gênero, questionamos 40 pessoas, entre homens e mulheres, para saber a opinião delas sobre o tema. E a nuvem a seguir representa as respostas de cada um desse grupo. Quanto mais as pessoas repetirem a resposta, maior será a palavra dentro da nuvem. Desta forma, podemos perceber que a característica “manipulador” é considerada a menos agradável, tendo em vista que aparece maior em relação as outras.
BRASIL APRSENTA CRESCIMENTO NO NÚMERO DE SUICÍDIOS PRATICADOS POR HOMENS EM TODOS SEUS ESTADOS
Gabriel Shindo
Estados com maior número de população, como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo são os principais expoentes dos casos
O número de suicídios praticados por homens vem apresentando crescimento nos últimos anos. Segundo dados obtidos pelo Atlas da Violência e DataSUS, todos os estados do Brasil apresentaram aumento dos casos na última década, enquanto o mundo está conseguindo diminuir as suas taxas. Estados das regiões Sudeste e Sul correspondem por grande parte do número total de casos no país.
De acordo com os dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde, plataforma do governo federal, as mortes por lesão autoprovocada entre 2010 e 2020 aumentaram 47%. No ano de 2020, foram 10.868 casos de suicídio registrados no país e a tendência para os dados de 2021 e 2022 é de crescimento. Entre os cinco estados com maiores casos neste período, estão: São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Considerando o número de suicídios por milhão de habitantes, a ordem é alterada. O Rio Grande do Sul passa a ser o principal expoente, seguido por Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Piauí e Roraima. “Grandes centros têm maiores chances de acesso à droga, álcool, armas de fogo e inúmeras outras coisas negativas que podem aumentar as estatísticas de suicídio, retratam as facilidades que o ambiente externo pode provocar ao indivíduo", afirma o psiquiatra e neurocientista Wilson Pizzotti Júnior.

Na maioria dos casos, o suicídio ocorre após uma sequência de agravamento de quadros da depressão, doença essa considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o “Mal do Século”. No sentido patológico, há presença de tristeza, pessimismo, baixa autoestima, que aparecem com frequência e podem combinar-se entre si. A depressão provoca ainda ausência de prazer em coisas que antes faziam bem e grande oscilação de humor e pensamentos, que podem culminar em comportamentos e atos suicidas.
Uma ocorrência complexa, influenciada por fatores psicológicos, biológicos, sociais e culturais, o suicídio é quatro vezes mais incidente em homens, conforme aponta o Ministério da Saúde. Nesse público são 9,9 mortes autoprovocadas por 100 mil habitantes, já para as mulheres os dados diminuem para 2,6 casos por 100 mil, de acordo com o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil 2021-2030.
A mortalidade de homens por suicídio tende a ser maior devido à letalidade dos métodos utilizados. Os principais fatores associados a esse aspecto são a solidão e o isolamento social, o que agravou mais após o período de quarentena durante a pandemia no novo Coronavírus. Porém, apesar dessa ter causado impactos na saúde mental da população, os números de casos de depressão e suicídio, felizmente, não explodiram de forma expressiva no Brasil. Segundo dados do Anuário de Segurança Pública, divulgado em 2021, o aumento foi de 0,4% em 2020, sendo esse número majoritariamente de homens.
Estima-se que uma a cada cinco pessoas no mundo apresentam problemas relacionados à depressão e pensamentos suicidas. A melhor forma de prevenir esses acontecimentos é cuidando da mente e do corpo, com alimentação saudável e prática de atividades físicas regulares. Quando encontrado ajuda, o paciente será submetido a tratamentos específicos para o quadro em que se encontra. O diagnóstico da doença é clínico e somente pode ser dado por um médico especialista, no caso psiquiatra, que é responsável por tratar pessoas com transtornos mentais. De acordo com o psiquiatra Wilson Pizzotti, o tratamento desses casos para o sexo masculino é baseado em acolhimento: “Em primeiro plano, um acolhimento familiar e, em seguida, profissional. É aí que entra a psicologia e a psiquiatria. É a instrução de todas essas áreas. Nada melhor que o acolhimento, uma conversa, para que tudo se resolva”, diz.
Segundo dados obtidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e no DataSUS, é possível afirmar que os casos de suicídio crescem em desproporção em relação a quantidade de homens no Brasil. Em 2010, eram 95.513.298 pessoas do sexo masculino país, número que cresceu pouco mais de 8 milhões na década seguinte, totalizando aumento de aproximadamente 8% em 10 anos. Os casos de suicídio, no entanto, aumentaram em cerca de 47% no mesmo período.
Existe, ainda, um componente cultural que prejudica e fortalece o alto número de suicídios. Grande parcela dos homens é ensinada desde cedo a não demonstrar sentimentos que apresentem fraqueza. “Há um construto social de que o homem macho não fala de seus problemas, essa ideologia machista de que o homem deve ser forte a todo custo é uma falácia que vem sendo sustentada em famílias, escolas, igrejas e núcleos formadores. Meninos crescem aprendendo que cuidar de si é ganhar dinheiro e mostrar ser forte para vencer outros meninos”, afirma o psicólogo Fábio Polloto.
Desde 2014, ocorre um esforço nacional para mitigar os números de suicídio. A campanha Setembro Amarelo busca divulgar e conscientizar a população brasileira da importância da luta contra suicidio. A escolha do mês se dá em razão do Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio ocorrer no dia 10 de setembro. Além do movimento, foi criado o “CVV - Centro de Valorização da Vida”, que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail e chat todos os dias. A ligação para o CVV, em parceria com o SUS, por meio do número 188, é gratuita a partir de qualquer linha telefônica fixa ou celular.
QUIZ
João Martins
Na reportagem acima, mostramos informações sobre o crescimento do número de casos de suicídio masculino no Brasil, mas será que você compreendeu boa parte dos dados apresentados? Te convidamos a testar o conhecimento adquirido sobre o assunto. Responda o quiz abaixo e mostre o quanto aprendeu lendo a nossa reportagem.
MASCULINIDADE VIOLENTA
Gabriel Shindo, Gustavo Lacerda, João Martins, Kaique Nogueira, Lucas Teixeira, Luccas Bittencourt e Pedro Pasa
Segundo ranking divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes, o Brasil é o 8O país mais violento do mundo, sendo o principal expoente mundial em número absoluto de homicídios. Em 2014, outro estudo do órgão mostrou que 95% dos assassinatos cometidos no ano foram praticados por homens. De acordo com Debora Piccirillo, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo(NEV-USP), independentemente do tipo, os homens costumam ser os principais autores de violência. Isso nos faz pensar se não há um padrão de comportamento agressivo, associado ao gênero masculino, que tem a ver como a forma os meninos são criados desde cedo. Muitos núcleos familiares estimulam uma postura mais viril, combativa e dominante”, afirma Debora Piccirillo.
Por outro lado, o ambiente acaba impactando negativamente em casos de violência. Segundo a doutora em Antropologia Social Lidice Meyer, professora da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, o homem não nasce violento e o local no qual está inserido favorece essa prática. “A violência não é intrínseca ao gênero masculino. Tanto homens, como mulheres, podem tornar-se violentos dependendo das circunstâncias sociais a que sejam submetidos. A violência pode ter um componente psicológico de nascimento, mas é o meio que o estimulará ou não”, diz. Com isso, evidencia-se a proporção de episódios violentos causados por personagens masculinos e que a explicação é motivada por características culturais que estimulam práticas violentas desde cedo. Confira na série de reportagens abaixo:
PODCAST "ENTRE ELES"
Lucas Teixeira
Segundo ranking divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes, o Brasil é o 8O país mais violento do mundo, sendo o principal expoente mundial em número absoluto de homicídios. Em 2014, outro estudo do órgão mostrou que 95% dos assassinatos cometidos no ano foram praticados por homens. De acordo com Debora Piccirillo, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo(NEV-USP), independentemente do tipo, os homens costumam ser os principais autores de violência. Isso nos faz pensar se não há um padrão de comportamento agressivo, associado ao gênero masculino, que tem a ver como a forma os meninos são criados desde cedo. Muitos núcleos familiares estimulam uma postura mais viril, combativa e dominante”, afirma Debora Piccirillo.
Por outro lado, o ambiente acaba impactando negativamente em casos de violência. Segundo a doutora em Antropologia Social Lidice Meyer, professora da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, o homem não nasce violento e o local no qual está inserido favorece essa prática. “A violência não é intrínseca ao gênero masculino. Tanto homens, como mulheres, podem tornar-se violentos dependendo das circunstâncias sociais a que sejam submetidos. A violência pode ter um componente psicológico de nascimento, mas é o meio que o estimulará ou não”, diz. Com isso, evidencia-se a proporção de episódios violentos causados por personagens masculinos e que a explicação é motivada por características culturais que estimulam práticas violentas desde cedo. Confira na série de reportagens abaixo:



DO ÓDIO PELO FUTEBOL AO AMOR PELA ARBITRAGEM
Pedro Pasa
Foto: Marcos Ribolli

Copa do Mundo de 1994, um adolescente que nunca gostou de futebol devido aos conflitos e discussões familiares causadas pelo esporte bretão começa a perceber uma figura diferente nas transmissões, os árbitros, que atuavam com uniformes coloridos, um apito na boca e distribuindo cartões para lá e pra cá.
A presença mais respeitada pelos atletas e a mais xingada pelos torcedores durante as partidas chamava a atenção de Igor, que nunca se deu bem com a bola nos pés, mas havia começado a jogar recentemente para não ficar isolado dos amigos e conseguir esconder a sua homossexualidade, que começava a dar sinais. O jovem garoto sentia algo diferente do que a sua família e a sociedade impunham a ele como o padrão.
Com muito medo dos familiares e amigos descobrirem que sentia atração e desejo por homens, Igor entrou de vez no mundo do futebol. Os primeiros contatos com a bola aconteceram na rua e na escola, onde começou a participar das tradicionais peladas entre os vizinhos ou colegas de classe. Porém a sua intimidade com a redonda nunca foi das maiores. O jovem até entrou em uma escolinha de futebol por influência dos amigos, para ver se conseguia ter um melhor desempenho dentro das quatro linhas.
Já treinando na escola de futebol, porém agora com o interesse na arbitragem, as coisas começaram a se desenhar para o futuro do juiz, que a partir daquela Copa já havia decidido e comunicado aos amigos que se aposentaria da função de jogador para se tornar o árbitro das partidas entre os colegas
- Igor vem jogar com a gente hoje?
- Então pessoal, não vou mais jogar futebol não - disse Igor aos amigos
- Como assim? Por que não?
- A partir de hoje vou ser o juiz dos nosso jogos. Vou apitar as peladas.
- Como assim, juiz?
- Isso, vai ser legal, vocês vão ver…
A partir daí, Igor começou a colecionar experiências como juiz. Apitava as peladas dos amigos de rua, jogos de sábado na igreja em que frequentava, os grandes clássicos entre rua de cima e de baixo e até mesmo partidas de futsal na escola. Tornou-se o árbitro oficial da sua vizinhança, e a ideia começou a agradar tanto os amigos como os pais dos meninos que ali jogavam.
Feliz na função de árbitro, Igor tomou a decisão de que a vida de goleiro frangueiro da escolinha já não era mais para ele. A convite do treinador da escolinha começou a estudar as regras do esporte.
- Igor já que você se interessa tanto por essa parte da arbitragem e sempre me pergunta sobre, o que acha de começar a estudar algumas regras?
- Legal professor, quero muito aprender mais sobre. Gosto mais de apitar do que de jogar – disse rindo.
- Então combinado, você continua treinando como goleiro, mas em dias de campeonato você vem para observar e começar a se familiarizar com as regras.
- Combinado!
Igor se empolgou com a possibilidade e, a partir daí, começou a estudar as regras, pesquisar os critérios e observar a arbitragem em todas as partidas que poderia assistir.
- Igor, o que acha de apitar a próxima partida do nosso campeonato interno?
- Nossa professor, seria minha primeira experiência, eu aceito! - respondeu o jovem animado com a chance.
A partir desse momento Igor já se sentia um árbitro de futebol. Mesmo com apenas experiências amadoras.
- Muito bem, meu garoto! Parabéns pela partida. O que acha de começar a apitar alguns campeonatos por aqui? Iremos te remunerar por isso. - disse o seu treinador e mentor da escolinha.
- Era tudo que eu queria! Vai ser uma oportunidade incrível - respondeu empolgado.
Com a atividade tornando-se a sua primeira fonte de renda, o interesse pelo apito aumentou ainda mais.


Em 1998, com 17 anos, o até então jovem árbitro amador decidiu buscar uma oportunidade para seguir a carreira de juiz. A primeira atitude foi procurar a Federação Mineira de Futebol (FMF) e, por sorte, as inscrições para fazer o curso de arbitragem ainda tinham uma semana para serem encerradas. Neste momento, começou a sua caminhada rumo à profissionalização na área.
O trajeto foi longo, como em qualquer carreira. O início da caminhada foi sentado no sofá acompanhando as partidas da Copa de 1994. A oficialização da jornada foi dada em 98, e as etapas estão sendo percorridas até hoje.
O começo da vida profissional foi como árbitro auxiliar, o famoso “bandeirinha”. Passou por campeonatos infantis, várzea, divisões inferiores do estadual, até chegar na primeira divisão mineira. Quando estava prestes a figurar o quadro da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 2005, um esquema de apostas foi descoberto. As rodadas do campeonato nacional foram anuladas, e o número de árbitros pertencentes ao quadro da confederação foi cortado para os anos seguintes.
O que seria um problema foi para Igor uma solução, pois o sonho era se tornar árbitro central e, neste momento, em meio às dificuldades trazidas pela situação, ele tomou coragem para regressar à federação e iniciar a caminhada desde o marco zero.
Foto: Lauro Alves/Agência RBS
Em 2009 surgiu a primeira oportunidade na principal divisão mineira. Em 2012 finalmente entrou no quadro da CBF e, em 2014, apitou a primeira partida na Série A do Brasileirão.
No grupo de amigos em que muitos sonhavam ser um grande astro e viver do futebol, o único que está até hoje neste meio é o rapaz gay, que odiava o esporte e sofria com o medo do preconceito que poderia sofrer caso a sua sexualidade fosse descoberta.
Passados 23 anos de carreira no mundo da bola, já consagrado como árbitro VAR FIFA e apaixonado pela arbitragem, Igor decidiu que era hora de parar de viver no personagem que tinha criado para sobreviver em um mundo tão preconceituoso. Decidiu assumir publicamente a homossexualidade.
Os medos de apanhar, ser expulso de casa, virar chacota na escola, ser boicotado no meio profissional e até de ter amizades gays, para evitar comentários, já não cabiam mais dentro do seu coração. Igor já não queria mais passar por situações constrangedoras em momentos que seriam de diversão.
***
Certa vez, em um dia onde decidiu se permitir ter um momento de descontração, junto com alguns amigos em um bar voltado para o público LGBTQIAP+, um ambiente que se sentia bem, Igor foi abordado e chantageado por um jornalista. Mesmo sendo o mais discreto possível.
- Olá Igor, tudo bem? Eu te conheço. - disse o jornalista
- É mesmo, conhece de onde? - respondeu Igor, já estranhando a situação.
- Você é juiz de futebol, né?
- Sim, sou…
- Sabia que eu sou repórter de um jornal?
- É mesmo? Que bom, que legal.
Igor já não estava gostando da situação e sentia que algo de errado estava por acontecer.
- Então, já que estamos os dois aqui em um ambiente propício para isso, a gente poderia ficar junto.
- Eu não quero, obrigado!
- Bom, já que é desta forma, e se eu resolver divulgar na mídia que você, um juiz de futebol, estava frequentando um ambiente como este?
O árbitro teve que enfrentar durante toda a sua trajetória os traumas que carregou por mais de 40 anos. A necessidade de se sentir bem consigo mesmo, e a vontade de encorajar outras pessoas que passam pelo mesmo desafio em suas vidas falaram mais alto no desafio de assumir publicamente a homossexualidade.
E como alguém poderia imaginar que a possibilidade de viver livre para ser quem é e o apoio de todo o seu convívio social fariam tão bem? Como único árbitro do quadro FIFA assumidamente gay, Igor vive a melhor fase da sua vida. Os problemas psicológicos e os medos ficaram para trás e hoje, além de ser uma referência como VAR, é também um representante ativo da comunidade LGBTQIAP+, dando voz aos que sempre foram calados e mostrando cartão vermelho para a homofobia.
Atualmente ele apita partidas do campeonato mineiro como juiz central e também de vídeo, no quadro da CBF é árbitro VAR FIFA, atuando em partidas do campeonato Brasileiro séries A e B, Copa do Brasil e também em torneios internacionais, como a Libertadores e a Sul-Americana. Igor busca se aperfeiçoar cada vez mais na profissão que aprendeu a amar e se tornar cada vez mais uma referência na área, mostrando que a sua sexualidade não o limita a nada e que o esporte é um espaço para todos.

Esportes sem preconceito
Pedro Pasa
Quando se fala de masculinidade tóxica logo vem à mente o mundo dos esportes, que é um meio considerado muito preconceituoso, com pouco espaço para manifestações de minorias. Durante toda a história, foi comum gritos homofóbicos nas arquibancadas de uma partida de futebol, comentários machistas na televisão em uma partida de vôlei serem tratados como algo normal ou engraçado. Porém, felizmente as minorias que durante toda a história sofreram com esses preconceitos vem conquistando cada vez mais o seu espaço dentro do meio esportivo.
Nos últimos anos vimos ex jogador de futebol se assumindo bissexual, como o Rycharlison, que atuou por São Paulo, Atlético MG e Seleção Brasileira, árbitro FIFA se assumindo gay, o caso do juiz brasileiro Igor Benevenuto e uma mulher trans atuando na liga feminina de vôlei, a jogadora Tiffany Abreu de 38 anos, mesmo com toda a resistência do público. A necessidade de quebrar os tabus machistas criados pela sociedade a respeito de quem pode ou não praticar quaisquer que seja a modalidade esportiva vem aumentando cada vez mais. Com isso começaram as aparições de equipes LGBTQIAP+ em diversos esportes.
Uma das pioneiras na área, a Bulls SP, que une times de vôlei, de futebol e de handebol masculinos se identifica como uma associação da diversidade e tem como missão receber a todos que queiram praticar ou admirar os esportes respeitando toda e qualquer singularidade e características da pessoa humana.
A instituição se consolida cada vez mais como uma das principais instituições na luta contra o machismo e o preconceito dentro do esporte. Tendo diversas aparições na mídia e disputando diversos campeonatos, entre eles a Copa Playball, a Copa Sudeste, a Taça da diversidade e a Champions Ligay, inclusive conquistando títulos, como o da Copa Playball - série prata em 2020 e o do Primeiro Jogos LGBTQIAP+ de futsal em 2021, títulos de importância gigantesca no cenário de equipes amadores e semi-profissionais. O Bulls SP é uma linda história de 16 amigos homens e gays que decidiram lutar pelo espaço das minorias no esporte. Conversamos com o fundador da equipe Maurício Lima, 37 anos, que trabalha como auditor e é natural do Rio de Janeiro, para entender um pouco mais sobre o projeto e sobre a luta contra o machismo dentro do cenário esportivo.
Papo de Homem: Em qual momento da sua vida você decidiu fundar o Bulls? O que te motivou a iniciar o projeto?
Maurício Lima: Éramos 16 amigos gays que jogavam futebol juntos em uma outra equipe chamada Unicórnios e resolvemos ter o nosso próprio grupo. As cores vermelha e preto são por conta de eu ser flamenguista. Nossa primeira aparição na mídia foi no canal Põe na Roda, do Youtube, o que gerou uma repercussão enorme para a instituição.

PH: Quantas pessoas participam ativamente das equipes e incentivam o funcionamento do projeto atualmente?
ML: Hoje no Bulls - SP temos cerca de 90 atletas divididos entre as modalidades futebol, handebol e vôlei. O futebol foi o nosso esporte pioneiro, criado em 2017, e por isso temos mais jogadores, já o vôlei criamos em 2018, começando com treinos para recreações e evoluindo para competições e o handebol é muito recente, criado em 2021, por isso é o nosso esporte com menos integrantes fixos e os atletas convidam pessoas que vem de fora para praticar o esporte e treinar junto com o time.
PH: Como funciona para se tornar um atleta do Bulls? Há uma média de idade para participar das equipes? Onde a instituição funciona?
ML: Para se tornar atleta do Bulls basta gostar de alguma modalidade, ir visitar a equipe, sentir o clima e decidir se é o seu perfil. Como temos três opções de esportes, fica mais fácil a escolha. Não existe uma média de idade. É necessário ser maior de 18 anos para poder participar das competições e a equipe é de São Paulo. Os treinos não tem lugar fixo, mas são marcados em quadras de society alugadas espalhadas pela cidade.
PH: Na sua opinião, qual a importância da existência de equipes e ligas LGBTQIA+ para a inclusão de atletas que muitas vezes não tem espaço no esporte devido ao preconceito?
ML: O crescimento dos times LGBTQIAP+ no Brasil é muito importante, pois conseguimos descaracterizar aquela sina que existia de que gay não joga bola. Por exemplo, o Bulls já foi campeão de uma copa de futebol em SP contra times héteros, a Copa Playball - série prata em 2020 e a é reconhecido pelo seu bom futebol. Assim como outras equipes pelo Brasil também buscam seu espaço na modalidade sem limitar apenas a torneios LGBTs. Ajudamos muitas pessoas a se encontrarem no esporte ou voltarem a praticar a atividade que deixaram de praticar por conta da homofobia.
PH: Você acredita que essa representatividade, pode ajudar a mudar costumes machistas dentro do esporte e contribuir para uma sociedade mais respeitosa e com menos preconceitos?
ML: Eu acredito que nós nos fazendo presente na mídia e realizando um bom trabalho de inclusão, aos poucos vamos conquistando nosso espaço e mostrando que pessoas LGBTQIAP+ podem sim praticar qualquer modalidade.
PH: Durante a sua vida, em outras experiências em equipes, profissionais ou não, que não eram exclusivamente LGBT'S ou em organizações relacionadas ao esporte, você em algum momento notou um pensamento preconceituoso por parte de colegas de time, funcionários e outros membros das instituições?
ML: Nunca tive essa experiência como atleta em clubes, pois sempre atuei com amigos que também eram gays, mesmo quando a equipe não era somente voltada para a causa LGBTQIAP+. Porém já senti isso na pele em torcidas organizadas, essas sim são extremamente homofóbicas. Os cantos e os comportamentos adotados por algumas, como proibição de camisetas rosas, cabelos diferentes e acessórios como brincos, só reforçam essa forma de preconceito.
PH: Na sua opinião, qual o motivo para o universo de alguns esportes, como o futebol, serem ambientes com preconceito e machismo? Você ligaria esse fato à cultura da masculinidade tóxica?

ML: A masculinidade tóxica é um fator, mas a visão que alguns héteros têm de que os gays são sensíveis e afeminados gera esse preconceito de que não podemos jogar bola e de que futebol é para "macho''. Cansamos de ouvir isso em torneios de times predominantemente héteros. Até árbitros já foram homofóbicos. São tóxicos até perderem os jogos para nós.
PH: Cada vez mais, o meio esportivo tem se tornado mais inclusivo. Acha que com o tempo essa inclusão tende a crescer mais?
ML: Creio que em algumas modalidades já temos nosso espaço, como por exemplo no vôlei, onde existem mais atletas assumidamente LGBT´s. No futebol alguns atletas tiveram a coragem de se assumir. Já é um começo e aos poucos todos vão entender que a orientação sexual de uma pessoa não a limita esportivamente. Essa é nossa esperança.
Linha do tempo sobre as moda
MODA MASCULINA AO LONGO DAS DECADAS
Pedro Pasa
Com o passar dos anos, o estilo masculino sofreu alterações. Com o avanço da globalização, tendências de diversas partes do mundo passaram a se misturar e criar a identidade dos homens. Confira na linha do tempo abaixo as principais tendências das últimas décadas:
VESTIDO DE HOMEM
Pedro Pasa
A moda, assim como todas as coisas do mundo, passou por diversas modificações ao longo de sua história. Esta área está em constante mudança e acompanha os seres humanos desde meados do século XV no início do renascimento europeu. A variação nas vestimentas surgiu para diferenciar o que era igual, antes o estilo era o mesmo da infância até a morte. Da variedade se abriu a possibilidade para a expressão da personalidade através do modo de se vestir e atualmente a moda masculina ganha cada vez mais notoriedade e destaque no cenário. Segundo relatório da Sebrae, em 2020, o vestuário masculino movimentou mais de US$ 13,2 bilhões no Brasil e a projeção é de que alcance receita de US$ 705 bilhões até 2026. Se engana quem pensa que a moda é coisa de mulher, pois durante toda a história ela também ditou a regra na maneira de agir e se comportar dos homens. Um exemplo disto é que no mercado global, o consumo masculino cresce 14% ao ano, e do outro lado temos o público feminino que cresce apenas 8% anualmente, segundo o portal Terra.
Não há mais espaço para preconceitos e julgamentos no mundo moderno, a evolução dos seres humanos caminha cada vez mais para este lado e tudo o que faz parte do seu cotidiano tende a acompanhar. A maneira de se vestir no mundo masculino mudou, hoje não há mais distinção do que é coisa de homem e do que deixa de ser. Os profissionais da área adaptaram - se a essas questões e o seus trabalhos se tornaram cada vez mais inclusivos. É como nos explica o cabeleireiro Fagner da Silva, natural de Vitorino Freire do Maranhão, especialista em cortes de cabelo masculino, "A mentalidade dos homens está muito mais aberta, antigamente um homem que fazia a sobrancelha, por exemplo, sofria preconceito, hoje em dia é difícil algum cliente que não faz”.
A roupa e a forma de usá-la reflete a personalidade da pessoa e quando você permite se vestir da forma como está se sentindo, este reflexo fica cada vez mais presente.”A roupa que eu visto é um direto resultado da minha personalidade, não existe um sem o outro”. O estudante de artes visuais Henrique Francisco, explicita esse sentimento em sua fala.
Mudanças no estilo, nos acessórios e nas formas de se vestir são constantes e fazem parte do ser social, o documentário Vestido de Homem traz distintas visões sobre o conceito da moda masculina que te fazem refletir sobre a forma do homem se vestir e as mudanças disso ao longo do tempo. Dentre elas a estilista Flora Pessonia, natural de São Paulo e especialista em produção e confecção de roupas.

E no cinema?
Lucas Teixeira
Não são só as reportagens e os dados que colocam em pauta a masculinidade tóxica. Nos últimos anos, diversas produções cinematográficas como filmes, séries e documentários começaram a abordar o tema, retratando os principais dilemas e problemas internos que um homem enfrenta ao longo da vida. Produções como Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), A máscara em que você vive (2015) ou até mesmo filmes mais antigos, como Diferente dos Outros (1919) mostram como os preconceitos existentes no universo masculino podem ter um forte impacto na vida dos homens, e na de todos que vivem em sua volta.
Para te deixar ainda mais por dentro do tema, preparamos uma playlist com as principais produções que abordam a Masculinidade Tóxica e seus impactos na sociedade. Confere aí!
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